Após denúncia do Portal, Prefeitura substitui arquivos ilegíveis no TCE – mas frota municipal continua sendo um mistério

13/02/2026

Nove dias depois de ter sua prestação de contas exposta como uma verdadeira colcha de retalhos digitais – com 29 documentos completamente ilegíveis e uma planilha de veículos recheada de dados fictícios – a Prefeitura de Eliseu Martins finalmente se mexeu. Na última quarta-feira, 11 de fevereiro, novos arquivos foram publicados no lugar de alguns dos relatórios que antes eram puro lixo de código. Agora, é possível ler, por exemplo, o Demonstrativo da Receita de Alienação de Ativos, o Demonstrativo das Operações de Crédito e o Demonstrativo da Disponibilidade de Caixa. A letra virou texto, os números viraram contas. A população, enfim, consegue enxergar alguma coisa.

Mas antes que alguém confunda isso com transparência ou boa vontade, é preciso deixar claro: a prefeitura só agiu porque foi denunciada publicamente. Foram nove dias de absoluto descaso, com o portal do TCE-PI abrigando arquivos inúteis como se fossem prestações de contas legítimas. Nove dias em que qualquer cidadão que tentasse fiscalizar o dinheiro público encontrava apenas páginas de caracteres aleatórios. Nove dias de silêncio do Tribunal de Contas, que até agora não se manifestou oficialmente sobre o caso. Se não fosse a pressão da imprensa e das redes sociais, muito provavelmente os arquivos continuariam lá, intactos, como uma enorme mancha de opacidade.

Os novos documentos, agora legíveis, merecem atenção. Os números que emergem desse mutirão de correções trazem sinais que não podem ser ignorados pelos órgãos de controle. Há indícios de desequilíbrio em contas importantes, valores previstos que simplesmente não se realizaram e movimentações que levantam questões sobre a real saúde financeira do município. O Tribunal de Contas do Estado e a Câmara de Vereadores de Eliseu Martins têm agora a obrigação de mergulhar nesses dados com lupa, porque a versão legível não apaga os nove dias de apagão – pelo contrário, torna ainda mais urgente entender o que se tentou esconder.

E há um detalhe que não pode passar despercebido: a famigerada lista de veículos continua exatamente a mesma. A "Relação de Veículos Próprios e/ou Cedidos" segue intacta no portal, com seus dados fictícios e sua cara de mentira. Ainda está lá o Chevrolet Corsa 1998 com placa de Teresina, o Saturn SL-2 1991 a diesel e o agora folclórico Volvo S60 2015 elétrico, que seria uma raridade até para frotas de capitais. Os órgãos cedentes continuam sendo "de exemplo", e as datas de cessão seguem padronizadas como num exercício de escola. A prefeitura provou que sabe gerar arquivos legíveis quando quer – afinal, corrigiu diversos relatórios – mas, quando o assunto é a frota municipal, insiste em entregar uma ficção.

Cadê as ambulâncias que atendem a população? Cadê os ônibus escolares que transportam as crianças da zona rural? Cadê as caminhonetes das secretarias, os carros que o povo vê nas ruas todos os dias? Enquanto esses veículos reais continuarem ocultos, substituídos por uma planilha de mentira, a transparência continuará sendo uma palavra vazia em Eliseu Martins.

A prefeitura fez o mínimo, e fez tarde. Corrigiu alguns papéis, mas mantém a farsa no que lhe convém. Agora cabe ao TCE-PI determinar se esses novos arquivos são suficientes ou se ainda há lacunas a serem preenchidas. Cabe à Câmara de Vereadores convocar os responsáveis e exigir a lista verdadeira da frota. E cabe à população continuar cobrando, porque se depender da boa vontade de quem deveria prestar contas, a verdade pode demorar mais nove dias – ou nunca chegar.