Campo Society: a licitação que deveria garantir o menor preço, mas que no final saiu R$ 61 mil mais cara que a proposta da segunda colocada
Uma análise dos documentos oficiais da Prefeitura de Eliseu Martins revela uma história no mínimo estranha. Um contrato para construir o Campo Society foi assinado em agosto de 2025. A obra foi inaugurada com festa em dezembro. Mas, 11 dias depois da inauguração, a Prefeitura resolveu aumentar o valor do contrato em 24%. O mais curioso: o documento desse aumento só foi publicado em fevereiro de 2026, quase 40 dias depois da assinatura. O leitor merece entender essa linha do tempo.
Vamos organizar os fatos como em um check-list para ficar mais fácil:
✅ Agosto de 2025: A Prefeitura assina o contrato com a Construtora Caxé Ltda para construir o Campo Society. Valor: R$ 307.442,88 (link). A licitação foi disputada em julho e a Caxé venceu porque ofereceu o menor preço, deixando a segunda colocada (Wr engenharia) para trás com uma proposta de R$ 320.240,39 (link).
✅ 19 de dezembro de 2025: O Campo Society é inaugurado com festa. A própria Prefeitura publica uma matéria no site oficial (link), com fotos e discurso, dizendo que a obra foi entregue à população. Ou seja: a construção estava 100% concluída.
✅ 30 de dezembro de 2025: 11 dias após a inauguração, a Prefeitura assina um termo aditivo aumentando o contrato em R$ 73.859,24. Com isso, o valor final da obra salta para R$ 381.302,12.
✅ 11 de fevereiro de 2026: Esse aditivo finalmente é publicado no Diário Oficial dos Municípios. Quase 40 dias depois da assinatura, e muito depois da obra já estar sendo usada pela comunidade (link).
Agora, vamos pensar juntos: se a obra já estava pronta e inaugurada no dia 19 de dezembro, que serviços foram feitos depois para justificar um aumento de quase R$ 74 mil? A Lei de Licitações (14.133/2021) é clara: aditivos só podem ser assinados durante a execução da obra, não depois dela pronta. Quando a Prefeitura entrega o equipamento à população, o contrato está encerrado. Não há mais o que aditar.
O dinheiro que sumiu da concorrência
Aqui mora o detalhe mais grave. A Construtora Caxé venceu a licitação porque ofereceu um preço R$ 12,8 mil mais barato que a segunda colocada. Era a vantagem para os cofres públicos. Mas, com o aditivo de R$ 73 mil assinado depois da obra pronta, o valor final do contrato (R$ 381.302,12) ficou R$ 61 mil MAIOR do que a proposta da segunda colocada (R$ 320.240,39).
Ou seja: no fim das contas, a Prefeitura pagou muito mais caro do que pagaria se tivesse simplesmente contratado a segunda colocada pelo preço que ela ofereceu na licitação. A concorrência pública, que serve justamente para garantir o melhor preço, virou letra morta. O dinheiro que deveria ter sido economizado simplesmente sumiu — ou melhor, foi acrescentado depois da obra pronta.
E a Câmara Municipal?
Nesta sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026, a Câmara Municipal de Eliseu Martins retoma os trabalhos legislativos após o recesso. É o momento perfeito para os vereadores fazerem o papel que a população espera deles: fiscalizar.
As perguntas estão na mesa:
Por que o aditivo foi assinado depois da inauguração?
Onde está a planilha de serviços adicionais que justifica esses R$ 73 mil?
Por que o documento só foi publicado em fevereiro, quase 40 dias depois da assinatura?
Se a obra custou R$ 381 mil no final, por que a Prefeitura não contratou a segunda colocada por R$ 320 mil e economizou R$ 61 mil do dinheiro público?
A população de Eliseu Martins merece respostas. E os vereadores, que agora retornam ao plenário, têm a obrigação de cobrá-las. O dinheiro é público. A obra foi entregue. Mas a conta — essa ainda não fechou.
