Prefeito de Eliseu Martins registra BO por invasão de e-mail… que sequer é da Prefeitura
Marcos Aurélio Guimarães usou delegacia para fazer vídeo em tom ameaçador, mas gestão municipal ainda depende de conta do Hotmail criada por gestão anterior.
O prefeito de Eliseu Martins (PI), Marcos Aurélio Guimarães, protagonizou uma cena no mínimo curiosa nesta quinta-feira (12). Em vídeo gravado dentro de uma delegacia da Polícia Civil, o gestor aparece exibindo um boletim de ocorrência e, em tom claramente ameaçador, insinua que ex-funcionários ou ex-gestores estariam acessando indevidamente o suposto "e-mail institucional" da Prefeitura.
O problema é que esse e-mail institucional… não existe.
Uma rápida visita ao site oficial da Prefeitura de Eliseu Martins (https://eliseumartins.pi.gov.br/) revela que o município não possui domínio próprio de e-mail. A página oficial, que divulga ações como atendimentos de saúde e decreto de ponto facultativo, não traz qualquer endereço com o formato @eliseumartins.pi.gov.br. Quem ainda cumpre o papel de canal digital oficial da gestão é um antiquado pmeliseu@hotmail.com – conta criada por um funcionário de gestão passada, sem qualquer vínculo jurídico com a administração pública.
Despreparo ou negligência?
Ao assumir o mandato, o prefeito não só manteve ativa uma conta privada da gestão anterior como sequer trocou a senha. Agora, desconfiado de que ex-gestores ainda a acessam, registra ocorrência. A lógica do gestor é inversa: primeiro deveria ter protegido o patrimônio público digital, trocando senhas e migrando para um e-mail institucional de fato. Em vez disso, preferiu o palanque da delegacia.
A manutenção desse Hotmail como canal oficial fere princípios elementares da administração pública. O princípio da impessoalidade exige que os meios de comunicação do poder público sejam vinculados ao órgão, não a pessoas ou gestões específicas. Já o princípio da continuidade resta violado quando o conhecimento técnico e os acessos ficam reféns de contas privadas – o município não detém, de fato, o controle sobre sua própria comunicação.
O BO pode virar contra o prefeito
Ao registrar a ocorrência sem antes ter adotado as medidas administrativas mais básicas, Marcos Aurélio pode ter criado uma prova contra si mesmo. O gestor admite, publicamente, que mantém dados públicos em servidor estrangeiro sem contrato, sem segurança e sem qualquer governança. Em tempos de Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), isso é, no mínimo, temerário.
O Ministério Público e o Tribunal de Contas dificilmente focarão apenas no possível ex-servidor que teria acessado a conta. A conduta do prefeito – que usou estrutura policial para tratar de um problema criado por sua própria inércia – tende a se tornar o centro das atenções.
Tom ameaçador e uso da máquina
O vídeo, gravado dentro de uma delegacia e com linguagem intimidadora, também acende alertas. Ainda que não mencione nomes, o tom claramente eleitoreiro e a exposição pública de investigados (mesmo que não identificados formalmente) beiram o abuso de autoridade. A estrutura da segurança pública não pode ser utilizada como extensão de gabinete ou palanque político.
Eliseu Martins merece uma gestão digital à altura do século XXI, não um prefeito que descobre, no meio do mandato, que a chave do cofre ainda está com o inquilino anterior.
E agora, prefeito? Trocar a senha do Hotmail ainda é mais rápido que gravar vídeo em delegacia.
